segunda-feira, 17 de março de 2014

Centro de Comando: 2x08 - Aquele com Muita Maquiagem


Você abriria mão da sua inteligência para ser mais bonito? Tem gente que sim, numa boa. Vaidade descontrolada, consumismo, culpa da midia, que expões padrões estéticos irreais, ou intolerância? Pense um pouco, e para isso, beleza não ajuda.

"Apesar de saber que a inteligência é o que conta no final, certamente trocaria um pouco da minha por beleza. Acho que teria menos conflitos, melhoraria minha auto-estima. Na balada, por exemplo, não tem jeito: todo mundo procura gente bonita" assumiu Alexandre Ribeiro aos 19 anos, que dizia estar sempre de regime e preocupado com a pele e o cabelo. Do outro lado do front, o estudante Ivan Petrich, na época com 17 anos, acredita que "de cara, a beleza ajuda muito mais que o fato de ser inteligente". E completa: "Já consegui varias coisas na vida por ser 'mais ajeitadinho', por pior que isso possa soar. Na noite, por exemplo, sempre pego umas meninas mais bonitas e levo a melhor numa disputa com um cara considerado mais feio".


Verdade seja dita: a garota que tem a pele malcuidada ou o cara com vário quilinhos a mais despertam menos interesse numa festa, por exemplo. Mas a obsessão da rapaziada com a beleza e a vaidade descontrolada não estão virando loucura? Não é exagero, pra dizer o minimo, aceitar de bom grado trocar inteligência por beleza, ainda mais sabendo que a beleza estética é limitada pelo tempo e a inteligência não? E se alguém parasse pra conversar com a garota espinhuda ou com o cara gordinho na festa não poderia se surpreender com outro tipo de beleza, aquela que não se põe na mesa?

Na versão de 2005 do Dossiê Universo Jovem, uma pesquisa da Mtv com brasileiros de 15 a 30 anos para detectar tendencias e entender comportamentos, 60% dos 2.359 entrevistados acreditam que pessoas bonitas tem mais oportunidades na vida. Mais que isso: cerca de 350 deles abririam mão de 25% do conhecimento acumulado para serem 25% mais bonitos. Numa interpretação livre dos dados, dá pra dizer, entre aspas mesmo, que "eles preferem ser bonitos e burros a inteligentes e feios".


A busca por um visual mais descolado, magro e malhado parece ter mais importância do que ser inteligente, acumular conhecimento, se embrenhar em cursos legais e aprender línguas pelo mundo. Numa espécie de teoria da evolução as avessas, vivemos num mundo onde, aparentemente, só os bonitos sobrevivem. E a vaidade estética ganha de lavada da vaidade intelectual, como se ninguém mais pensasse em ler um bom livro, fazer uma faculdade legal ou aprender a tocar um instrumento. O negócio é ser bonito, custe o que custar, e ponto. Há dezenas de reality shows mundo afora que, quanto maior a mudança estética dos candidatos, maior o ibope. Mas não há nenhum em que você possa ficar enfurnado numa casa durante um mês, que seja, alimentando a alma com informação, lendo livros incríveis, tendo palestras com filósofos inspiradores, conversando com poetas e escritores escolhidos a dedo e escutando só zonzeira da boa.

"Infelizmente, beleza abre muitas portas. Pode ver, todo mundo é pressionado por essa ditadura da magreza, está sempre fazendo mil dietas, se acabando na academia. Eu já fiz plástica para reduzir os seios. Não tinha problema na coluna nem nada, mas achava que assim ia ficar mais bonita", conta Regiane, de 21 anos, que entrou tranquilamente em uma concorrida universidade pública do interior paulista. "Claro que não queria ficar burra, mas acho que, sei lá, se trocasse um pouco da minha inteligencia por um pouco de beleza não ia ter que ficar me matando por um monte de coisas, estudando feito louca. Eu ia ser modelo e pronto!"


"A beleza pode ser um caminho mais fácil para você mostrar que também é inteligente. Quando se é bonito todo mundo parece mais interessado nas coisas que você tem a dizer". afirma o estudante Lucas Micheletto, de 22 anos, que emagreceu 20 kg e viu tudo a sua volta mudar. "O mundo dá muito mais chances e atenção a quem é magro ou bonito. A forma como os outros me tratam mudou junto com o meu corpo. Até quando vou comprar roupa as vendedoras são mais atenciosas do que eram."

Afinal, beleza é mesmo fundamental? Sim, pra muita gente é. No facebook, por exemplo existem pelo menos 11 comunidades (com quase 3 mil participantes) que defendem esse mundo 'mais belo'. Até ai tudo bem. O Problema é a busca pelo padrão de beleza se tornar o único objetivo de vida de uma pessoa. Porque as loucuras, doenças e obsessões que vem como efeito colateral não costumam ser nada belas.


Em 2003, depois de ser recusada na ultima etapa de uma entrevista de emprego porque "meu perfil de beleza não se encaixava ao da empresa", a paulista Viviane entrou em depressão. Não teve duvidas: largou a faculdade e se internou num spa. "Até então meus 80 kg não incomodavam, mas depois de ouvir que meus cursos, estudos e até testes da entrevista não bastavam para conseguir a vaga, fiquei neurotica" conta. Tão neuorotica que ganhou mais 70 kg e se juntou aos mais 800 mil pacientes por ano recorrem a cirurgia plastica no Brasil. 'Fiz varias cirurgias, redução de mama, reconstrução de umbigo, dez lipos nas costas, lipoescultura e até redução de estomago. Não pensava mais em nada, parei de sair com meus amigos. Só queria ser magra e bonita.' Depois de quase ficar bulímica, ela acredita que são os próprios jovens que impõem essa neurose de ser bonito. "A menina vê uma outra mais bonita na praia, e ainda o namorado olha pra essa outra também, pronto: já quer ser igual. Só pensa nisso."

Hoje, com 60 kg a menos, Viviane retomou os estudos e botou na cabeça a real: o que importa é estar bem consigo mesmo, e essa é a uma vaidade positiva, que não tem nada a ver com os padrões estabelecidos ou com o que os outros pensam sobre você.


"A vaidade ajuda a perpetuar a memoria dos homens, e a virtude nunca foi considerada pela natureza humana como digna de receber mais do que um prêmio de segunda mão... A vaidade é como o verniz, que não só faz brilhar, mas também durar as madeiras... Os vaidosos são os escarnio dos homens sábios, a admiração dos tolos, os ídolos dos parentes, os escravos das próprias jactancias." (Francis Bacon, pensador).


Espero ter ajudado e se não ajudei, tudo bem, a próxima matéria será com o Glauber novamente e voces vão rir de muitão, e vão acabar esquecendo de ligar, mandar mensagem e de pensar em pessoas inadequadas. Até lá!

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