sábado, 10 de janeiro de 2026

TTRA: 1x07 - The Traitors Realidade Alternativa - Sombras Reveladas, Máscaras Mantidas


Uma nova manhã nascia sobre o castelo, mas não havia nada de leve nela. A névoa cobria os jardins e se infiltrava pelas janelas altas, como se até o clima soubesse que alguém não veria aquele dia começar. A casa despertava devagar, portas rangendo, passos cautelosos ecoando pelos corredores de pedra. Depois de uma noite de conspiração silenciosa, os Traidores já tinham feito sua escolha e agora restava aos outros enfrentar a revelação. Fabrício, Lorena e Penélope foram os primeiros a descer as escadas. Nenhum dos três parecia ter dormido de verdade. Fabrício caminhava à frente, tentando sustentar uma expressão confiante, mas seus olhos denunciavam o cansaço e a ansiedade. Ele respirou fundo antes de empurrar a pesada porta da sala do café da manhã. O rangido ecoou alto demais. Os três pararam na entrada. A mesa estava parcialmente posta, xícaras alinhadas, cadeiras vazias esperando por seus donos. O fogo na lareira ainda queimava baixo, criando um contraste estranho entre aconchego e tensão. Mas o que realmente importava era a ausência e ainda era cedo demais para saber quem faltaria para sempre. Fabrício entrou primeiro, sem se sentar. Ficou de pé, encarando a porta como se pudesse apressar o destino. Lorena veio logo atrás, braços cruzados, olhar afiado. Ela analisava cada cadeira como se pudesse encontrar ali uma pista invisível. Contava mentalmente os lugares, organizando nomes na cabeça, avaliando cenários possíveis. Penélope hesitou antes de dar mais alguns passos. As mãos entrelaçadas na frente do corpo revelavam um nervosismo que ela já não conseguia disfarçar. Seus olhos iam da mesa à porta, da porta às cadeiras vazias e depois aos colegas ao lado, como se buscasse algum tipo de garantia que ninguém podia oferecer. O silêncio entre eles era desconfortável. Não era apenas medo, era antecipação. A qualquer momento, a porta poderia se abrir. Cada segundo que passava aumentava a pressão no ar. Se todos entrassem, haveria suspiros de alívio temporário. Se alguém não aparecesse... O jogo mudaria de novo. E ali, naquela sala fria e elegante, os três perceberam que a pior parte de ser um Fiel não era a suspeita. Era a espera.

O silêncio ainda pairava na sala quando passos começaram a ecoar pelo corredor. Não eram passos hesitantes, vinham em grupo, em ritmo quase descompassado, como se cada um estivesse lidando com a própria ansiedade. Fabrício foi o primeiro a virar a cabeça em direção à porta. Lorena descruzou os braços. Penélope prendeu a respiração. A maçaneta girou. Dimas entrou primeiro, com o maxilar tenso e o olhar varrendo o ambiente em busca de respostas imediatas. Ele não cumprimentou ninguém, apenas contou mentalmente quem já estava ali e assentiu, como se estivesse atualizando um quadro estratégico invisível. Logo atrás veio Helena. Diferente da postura firme de Dimas, ela entrou devagar, observando os rostos um por um. Quando percebeu que ainda havia cadeiras vazias demais, sua expressão perdeu um pouco da cor. Ainda assim, forçou um pequeno sorriso. "Bom dia... Eu acho" murmurou, sentando-se com cuidado. Marcela apareceu na sequência, respirando fundo antes mesmo de cruzar a porta. Ela parecia ter ensaiado manter a calma, mas seus olhos denunciavam que a noite tinha sido longa. Ao ver que já havia seis pessoas na sala, soltou um suspiro quase imperceptível, alívio temporário, mas ainda insuficiente. Por último, Rafael. Ele entrou com passos medidos, postura tranquila, olhar atento. Diferente dos outros, seu semblante era sereno demais para aquela manhã. Cumprimentou o grupo com naturalidade, como se fosse apenas mais um sobrevivente da noite. Sentou-se sem pressa, cruzando as mãos sobre a mesa. Por dentro, porém, a tensão existia não de medo, mas de cálculo. Ele observou cada reação com precisão cirúrgica. A forma como Penélope evitava contato visual. O jeito como Dimas analisava todos, desconfiado. O silêncio desconfortável de Marcela. O controle excessivo de Fabrício tentando parecer inabalável. Rafael sabia exatamente por que aquelas cadeiras ainda estavam vazias. Mas seu papel ali era outro. "Parece que ainda falta gente" comentou, em tom neutro, quase casual. Lorena lançou um olhar rápido para ele, como se tentasse medir o peso daquela frase. Agora eram sete na sala. E quanto maior o grupo, maior a tensão coletiva. Porque, cedo ou tarde, a porta se abriria novamente. A maçaneta girou devagar. Amélie entrou sozinha. Ela parou por um breve segundo na porta, os olhos percorrendo rapidamente a mesa, contando quem já estava ali. Ao perceber oito rostos incluindo o dela, sua expressão suavizou apenas um pouco, mas a tensão continuava evidente. "Bom dia..." disse, em voz baixa. Diferente de outras manhãs, ela parecia mais contida. Caminhou até a mesa com postura firme, mas seus movimentos eram cuidadosos demais, como se cada gesto estivesse sendo observado e estava. Sentou-se em silêncio. Agora eram oito.

O silêncio mal teve tempo de se acomodar novamente quando um novo conjunto de passos ecoou pelo corredor, desta vez, mais apressados, mais numerosos. A porta se abriu com menos hesitação. Bianca entrou primeiro, postura ereta, expressão controlada demais para aquela manhã. Seus olhos percorreram a mesa rapidamente, calculando o cenário em segundos. Ao perceber quem já estava presente, permitiu-se um pequeno sorriso de alívio, perfeitamente ensaiado. Atrás dela vinha Maurício, respirando fundo ao cruzar a porta, como se tivesse passado o trajeto inteiro se preparando para aquele momento. Ele lançou um "bom dia" quase automático, mas a tensão em sua voz era evidente. Núbia entrou logo depois, olhando diretamente para as cadeiras vazias antes mesmo de cumprimentar alguém. Sua testa franziu discretamente, ela também estava contando. Rosiane fechou o grupo, entrando mais devagar. Assim que viu a quantidade de pessoas já reunidas, levou a mão ao peito em um gesto instintivo de alívio. Agora a sala estava mais cheia. O som das cadeiras sendo puxadas e dos cumprimentos cautelosos quebrou parte do silêncio sufocante. Bianca sentou-se com tranquilidade calculada, cruzando as pernas e apoiando as mãos na mesa. Por dentro, sua mente já estava dois passos à frente. Sabia exatamente por que algumas cadeiras continuavam vazias. Mas seu papel ali era o de sobrevivente. "Parece que estamos quase completos" comentou, em tom leve, como se fosse apenas uma observação inocente. Alguns trocaram olhares. Agora eram doze. E restavam poucas cadeiras vazias. A próxima vez que aquela porta se abrisse poderia trazer alívio definitivo... Ou a confirmação de mais um assassinato. O clima já estava denso quando novos passos ecoaram pelo corredor, firmes, rápidos, decididos demais para aquela manhã. A conversa baixa cessou imediatamente. Todos voltaram os olhos para a porta. Ela se abriu sem hesitação. Caio foi o primeiro a entrar, passando a mão pelo rosto como se ainda tentasse afastar o cansaço. Assim que viu a quantidade de pessoas reunidas, diminuiu o passo, fazendo uma contagem rápida e silenciosa. Dora surgiu logo atrás. Serena. Controlada. Observadora. Seus olhos percorreram cada expressão na mesa com uma calma quase elegante. Diferente de muitos ali, ela não demonstrava pressa nem nervosismo evidente. Apenas absorvia o ambiente. Ao notar as cadeiras vazias restantes, inclinou levemente a cabeça, como se registrasse mentalmente a informação. 

Icaro entrou em seguida, soltando um suspiro involuntário ao perceber que ainda havia espaço livre na mesa. O alívio não era completo, ainda faltavam pessoas, mas era suficiente para que seus ombros relaxassem um pouco. Matheus fechou o grupo, andando mais devagar. Ele não disse nada ao entrar, apenas encarou as cadeiras vazias por tempo demais antes de finalmente se sentar. Agora a sala estava quase cheia. O barulho das cadeiras sendo puxadas ecoou alto, misturado a cumprimentos tensos e olhares atravessados. Alguns começavam a sussurrar teorias. Outros evitavam contato visual. Dora sentou-se com postura impecável, apoiando as mãos sobre a mesa. Por dentro, sua mente estava tranquila. A noite tinha sido produtiva. O plano seguia intacto. Mas externamente, ela franziu a testa ao olhar para a porta ainda fechada. "Ainda falta gente" comentou, com um toque sutil de preocupação. Agora eram dezesseis. E restavam pouquíssimos lugares vazios. O comentário sobre as ausências não demorou a ganhar forma. Fabrício olhou fixamente para as duas cadeiras vazias e falou em voz baixa, mas clara: "Só faltam Estela e Bernardo." O nome dos dois pareceu mudar o clima da sala. Já não era uma espera genérica. Era específica. Direcionada. Lorena cruzou os braços, pensativa. "Se for estratégia pura, eu acho que foi o Bernardo. Ele estava articulando demais ontem." Dimas concordou com um leve aceno. "Ele começou a conectar votos. Isso assusta Traidor." Penélope, porém, balançou a cabeça. "Mas a Estela também estava muito certeira... Ela quase cravou uma acusação na última mesa." "Justamente" respondeu Lorena. "Às vezes eliminar quem está "quase lá" é mais urgente." Maurício passou a mão no queixo, nervoso. "Ou eles tiraram quem causaria mais impacto emocional." Um breve silêncio se instalou. Todos voltaram a encarar a porta. Duas cadeiras. Dois nomes. Em instantes, o jogo mudaria novamente... Para Estela... Ou para Bernardo. Então a porta se abriu pela última vez, trazendo a presença de Estela aos demais competidores, garantindo então que Bernardo não sobreviveu ao último corte dos Traidores.

Bernardo atravessou o corredor em silêncio, o som dos próprios passos ecoando como uma contagem regressiva. A porta do confessionário estava entreaberta, iluminada apenas pela luz suave das velas que tremulavam nas paredes de pedra. Ele respirou fundo antes de entrar. O ambiente era pequeno, solene, quase ritualístico. No centro, sobre a mesa redonda de madeira escura, repousava o pergaminho. Por um segundo, ele apenas encarou o envelope com seu nome escrito em tinta preta. Não havia mais dúvidas naquele ponto, estar ali sozinho já dizia muito. Ainda assim, a confirmação oficial tinha um peso diferente. Bernardo aproximou-se devagar, puxou a cadeira e sentou. Seus dedos tocaram o pergaminho com cuidado, como se o papel pudesse queimar. Ele soltou um suspiro curto, tentando manter a compostura. "Vamos lá" murmurou para si mesmo. Abriu o selo. Desenrolou o pergaminho. Seus olhos percorreram as primeiras palavras: "Bernardo, esta noite, os Traidores reuniram-se nas sombras do castelo e tomaram sua decisão. Sua habilidade de observação, sua influência nas conversas e sua crescente capacidade de conectar pistas tornaram você uma ameaça ao jogo deles. Por isso, você foi assassinado. Sua jornada termina aqui. Com pesar (ou não), Os Traidores." O silêncio após a leitura foi absoluto. Bernardo manteve os olhos fixos no texto por alguns segundos, absorvendo cada linha. Então soltou um leve riso incrédulo, balançando a cabeça. "Eu sabia..." disse, quase orgulhoso. "Eu estava chegando perto." Ele recostou na cadeira, passando a mão pelo rosto. Havia frustração, claro. Mas também havia uma ponta de satisfação. "Pelo menos eu incomodei." Seus olhos brilharam por um instante, emocionados. "Espero que vocês terminem o trabalho" completou, como se falasse diretamente aos Fiéis que ainda estavam no castelo. Com cuidado, dobrou o pergaminho novamente e o colocou sobre a mesa. A chama das velas tremeluziu, projetando sua sombra na parede de pedra pela última vez.

Horas antes, no silêncio calculado do conclave, as sombras dançavam nas paredes de pedra enquanto os três Traidores se encaravam ao redor da mesa. Dora quebrou o silêncio primeiro. "Precisamos pensar além de quem está "perigoso". Precisamos pensar em impacto." Bianca assentiu, apoiando os cotovelos na mesa. "Bernardo é inteligente, sim. Está observando. Mas ele não tem conexão forte com ninguém aqui dentro." Rafael franziu a testa. "Justamente por isso ele não é prioridade. Ele não lidera grupo nenhum." Dora inclinou levemente a cabeça. "E é exatamente por isso que ele é a melhor escolha." O silêncio que se seguiu foi estratégico. Bianca continuou: "Se eliminarmos a Estela, vamos criar comoção. Ela tem vínculos claros, alianças emocionais. Vai gerar comoção, revolta... E possivelmente unir as pessoas." "Já o Bernardo... Sai sem deixar um bloco coeso querendo vingança." completou Dora. Rafael cruzou os braços. "Mas ele está começando a pensar certo." "Está" concordou Bianca. "Só que sozinho." Dora foi ainda mais direta: "A morte dele não cria narrativa forte. Não cria grupo fechado. Não gera uma caça imediata por justiça. Ele é estratégico, mas isolado." Rafael respirou fundo, absorvendo. Bianca prosseguiu, fria e analítica: "Além disso, manter a Estela no jogo nos favorece. Ela é emocional, intensa. Pode acabar sendo vista como exagerada na próxima mesa redonda. Pode virar alvo sozinha." "Ela pode servir como distração. Um possível escudo se o foco precisar mudar." concluiu Dora. Rafael passou a mão pelo rosto, visivelmente contrariado. "Então vocês querem tirar alguém porque ele não deixa rastro." "Exatamente" respondeu Dora, sem hesitar. O raciocínio era cruel. E eficiente. Rafael sabia que Bernardo estava começando a organizar pensamentos perigosos. Mas também sabia que eliminar alguém sem raízes profundas mantinha o jogo fragmentado. Sem mártir. Sem bloco unido. Ele fechou os olhos por um instante e então assentiu. "Certo. Bernardo." A decisão foi selada ali, não por medo imediato, mas por cálculo social. Naquela noite, não escolheram o mais barulhento. Escolheram o mais solitário. De volta a mesa do café da manhã, a porta se abriu de repente e Estela surgiu, ofegante, olhando ao redor e percebendo imediatamente todos os olhares fixos nela. Por um segundo, ela arregalou os olhos ao notar que todas as outras cadeiras, menos a sua, estavam ocupadas. Então levou a mão ao peito e soltou: "Gente?! Vocês estão com essa cara por minha causa?" Alguns riram, o alívio escapando quase involuntariamente. Estela caminhou até a mesa ainda sorrindo. "Eu juro que só me atrasei, não fui sequestrada pelos Traidores não." O clima, que até então estava pesado e sombrio, quebrou por alguns segundos. Porque agora não restavam mais dúvidas. Bernardo não entraria.

O som de talheres batendo nos pratos ainda ecoava pela sala quando as portas se abriram novamente, desta vez com intenção. Selton Mello entrou com passos calmos, expressão solene e um olhar que percorria a mesa como se estivesse avaliando cada um individualmente. A conversa cessou aos poucos, até que só restasse o crepitar da lareira. Ele caminhou lentamente até a parede onde os quadros dos participantes estavam expostos. Passou os dedos pelas molduras. Parou diante do retrato de Bernardo. "Algumas peças do jogo" começou, em tom grave "Caem antes mesmo de perceberem que estavam no centro do tabuleiro." Virou-se levemente para o grupo. "Bernardo tentou montar o quebra-cabeça... Mas acabou virando parte dele." Sem pressa, retirou o quadro da parede. Por um segundo, segurou-o diante do elenco. "No fim das contas, ele foi... Eliminado da equação." E então soltou a moldura no chão. O som do vidro se estilhaçando ecoou pelo salão, fazendo alguns participantes estremecerem. Selton observou as reações, o choque genuíno, os olhares marejados, os rostos estrategicamente neutros. "Vocês podem até achar que sobreviver ao café da manhã é um alívio" continuou, caminhando devagar diante da mesa. "Mas cuidado para não confundirem sobrevivência com segurança." Ele parou na cabeceira. "Hoje à noite, vocês enfrentarão mais uma mesa redonda." O silêncio voltou a pesar. "E seria um erro... Imperdoável... Banir mais um Fiel enquanto os Traidores continuam sentados entre vocês." Seu olhar percorreu cada rosto uma última vez. "Portanto, não se sintam confortáveis demais. Nem seguros demais." Uma pausa. "Porque o jogo está longe de terminar."

No jardim, longe das paredes que pareciam escutar tudo, Rafael caminhava ao lado de Penélope e Amélie entre as sebes perfeitamente aparadas. O sol da manhã contrastava com o peso que ainda pairava sobre o jogo. Ele mantinha o tom casual. Leve. Como se estivesse apenas pensando em voz alta. "Vocês não acharam a Dora... Calma demais hoje?" comentou, chutando distraidamente uma pedrinha no caminho. Penélope franziu a testa. "Calma como?" Rafael deu de ombros. "Não sei. O Bernardo era estratégico. Se eu fosse Fiel e visse ele saindo, eu ficaria mais inquieto. Ela parecia... resolvida." Amélie cruzou os braços, pensativa. "Ela sempre é controlada." "Sim" Rafael concordou rapidamente. "Mas controle demais também é uma estratégia." Ele deixou a frase no ar. Penélope mordeu o lábio. "Você acha que ela já esperava que fosse o Bernardo?" Rafael fingiu hesitar, como se estivesse relutante em dizer aquilo. "Eu só acho curioso que, ontem, ela foi uma das primeiras a falar que o jogo precisava "quebrar lideranças". E hoje quem sai é justamente alguém que estava começando a articular." Amélie trocou um olhar rápido com Penélope. O jardim, que deveria trazer leveza, parecia pequeno demais para aquela conversa. O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era medo. Era dúvida plantada. E Rafael, com expressão serena, sabia exatamente o que estava fazendo. Na cozinha, Núbia apoiou as mãos na bancada e soltou um suspiro pesado. O barulho distante de conversas no jardim contrastava com o silêncio tenso daquele espaço menor. "Gente... Isso aqui é completamente diferente de tudo que eu já vivi" ela começou, balançando a cabeça. "No Power Couple tinha prova, tinha estratégia, tinha conflito... Mas você sabia contra quem estava jogando." Ela pegou a xícara, mas nem chegou a beber. "Aqui não. Aqui a pessoa toma café com você, te abraça, conversa olhando no seu olho... E pode estar planejando te eliminar à noite." A voz dela falhou levemente, mais de frustração do que de tristeza. "Eu achei que estava preparada. Achei mesmo. Mas isso aqui é outro nível. É psicológico. É você duvidando até de quem parece mais sincero." Núbia respirou fundo, encarando o líquido escuro na xícara como se buscasse respostas ali. "Eu não estava preparada pra algo tão tenso assim. Não tem prova que prepare a gente pra desconfiar de todo mundo ao mesmo tempo."

A noite caiu sobre o castelo como um manto pesado. As luzes externas iluminaram as torres antigas, enquanto o vento atravessava os jardins com um assobio baixo, quase como um presságio. Dentro, o clima era outro: Passos ecoavam pelos corredores de pedra, mais lentos do que de costume, mais conscientes. Um a um, os participantes foram conduzidos até a sala da mesa redonda. O ambiente estava à meia-luz. Velas altas projetavam sombras tremeluzentes nas paredes. A mesa circular os aguardava, imponente, silenciosa, inevitável. Eles se sentaram em seus lugares habituais, mas nada parecia habitual naquela noite. Alguns evitavam contato visual. Outros sustentavam olhares longos demais. As suspeitas já não eram sussurros no jardim: Agora precisariam ser ditas em voz alta. Quando todos estavam acomodados, as portas se abriram. Selton Mello entrou com passos firmes, a expressão séria, o olhar percorrendo cada rosto ao redor da mesa. Ele ocupou a cabeceira e deixou o silêncio crescer por alguns segundos, como se quisesse que cada batida de coração fosse sentida. "A noite sempre traz respostas" começou, em tom grave. "Mas também exige coragem." Ele apoiou as mãos sobre a mesa. "Hoje, vocês passaram o dia analisando, desconfiando, formando teorias. Alguns de vocês acreditam estar mais próximos da verdade. Outros talvez estejam apenas mais confiantes no próprio erro." Um leve estremecer percorreu o grupo. Selton respirou fundo antes de continuar. "O que é certo... É que, ao fim desta noite, um de vocês não voltará desta sala." A frase caiu como uma sentença. Alguns engoliram seco. Outros baixaram o olhar. Havia quem mantivesse a postura firme demais. "A decisão está nas mãos de vocês" concluiu. "Que não cometam o erro de fortalecer quem trabalha nas sombras." O silêncio que se seguiu não era vazio. Era o início da batalha. O silêncio ainda dominava a mesa quando Dora ajeitou a postura e levantou levemente a mão. "Eu posso começar a conversa hoje?" Com a permissão concedida, ela respirou fundo e foi direta: "Rafael, eu queria entender por que você passou o dia jogando o meu nome como possível Traidora para outras pessoas." A mesa reagiu imediatamente. Alguns se inclinaram para frente. Outros prenderam a respiração. Rafael piscou devagar, mantendo a expressão controlada. "Jogando seu nome? Eu não joguei seu nome, Dora." Ela sustentou o olhar. "Você questionou meu comportamento para algumas pessoas. Disse que eu estava "calma demais". E que isso era suspeito." Ele ajeitou-se na cadeira. "Eu fiz uma observação geral. Em nenhum momento eu falei: "a Dora é Traidora".

"Mas falou de mim como se fosse" ela rebateu, firme. Rafael então mudou ligeiramente o foco. "Quem te falou isso?" O tom não era agressivo, mas era estratégico. "Porque eu acho curioso como essa informação chegou até você." Um leve burburinho atravessou a mesa. Dora não hesitou. "Chegou porque foi falado." Rafael insistiu: "Mas por quem? Eu quero saber quem está distorcendo o que eu disse." Antes que Dora respondesse, Dimas se inclinou para frente. "Não teve distorção nenhuma" disse, objetivo. "Eu ouvi você falando que ela estava confortável demais com a saída do Bernardo." Rafael virou o rosto para ele. "Eu falei que achei curioso. Só isso." Amélie entrou na conversa logo em seguida. "Você não falou diretamente que ela era Traidora" admitiu "Mas deixou claro que era um comportamento suspeito. E fez isso mais de uma vez." O clima ficou mais denso. Rafael respirou fundo, percebendo que a tentativa de deslocar o foco não estava funcionando. Caio levantou levemente a mão, pedindo espaço na conversa. "Posso falar uma coisa?" Sem esperar muito, ele continuou: "Eu estou começando a acreditar naquele tal pacto de proteção entre os veteranos." Alguns rostos se viraram imediatamente para ele. "Porque, sinceramente, o que explica a Amélie e o Dimas se arriscarem desse jeito pela Dora? Eles podiam ter ficado neutros. Mas entraram direto pra defender. " completou. O comentário caiu como gasolina na fogueira. Dimas franziu a testa. "Eu não estou defendendo ninguém. Eu só confirmei o que ouvi." Amélie manteve a postura firme. "Eu falei o que aconteceu. Isso não é pacto, é honestidade." Caio deu de ombros. "Pode ser. Mas também pode ser um grupo se protegendo." O burburinho aumentou. Foi então que Rafael voltou a falar, agora com um tom diferente, menos defensivo, mais incisivo. "Ou pode ser exatamente o que parece quando Traidores estão sob pressão." O silêncio foi imediato. "Porque quando um nome começa a ganhar força a primeira reação de quem está jogando junto é blindar. Criar narrativa. Desacreditar quem trouxe a suspeita." ele continuou olhando brevemente para Dora, depois para Dimas e Amélie. "Isso é comportamento clássico de proteção." A mesa ficou dividida. Alguns começaram a cochichar. Outros analisavam expressões, tentando decidir quem parecia mais convincente. O que antes era um embate individual agora se transformava em algo maior: A possível existência de um bloco. E naquela mesa, blocos eram perigosos. Porque, se fossem de Fiéis, poderiam salvar o jogo. Mas se fossem de Traidores... Poderiam estar controlando tudo.

Dora esperou o burburinho diminuir antes de voltar a falar. Sua expressão continuava controlada, mas agora havia firmeza no tom. "Caio, eu poderia usar exatamente o mesmo argumento contra você." A mesa silenciou novamente. "Porque, se defender alguém é sinal de pacto, então o que você acabou de fazer com o Rafael também pode ser visto como um Traidor tentando tirar o outro da forca." Alguns participantes reagiram com um leve "hum", percebendo o ponto. Caio abriu a boca para responder, mas Dora continuou: "Você entrou na conversa no momento exato em que ele estava sendo pressionado. Isso também pode parecer proteção estratégica." O clima ficou ainda mais dividido. Rafael observava, atento. Foi então que Fabrício se inclinou para frente. "Gente, vamos ter cuidado com essa narrativa de "clube dos veteranos". Isso é perigoso e simplista demais." Ele olhou ao redor da mesa. "Experiência em reality não transforma ninguém automaticamente em Traidor. Se a gente começar a votar com base nisso, a gente vai errar feio." Maurício concordou imediatamente. "Exato. Essa ideia de que existe um grupo fechado é absurda. Aqui dentro todo mundo conversa com todo mundo. Defender alguém numa acusação não é pacto secreto." Ele fez um gesto com a mão, tentando trazer racionalidade à discussão. "Se cada vez que duas pessoas concordarem isso virar "aliança suspeita", a gente vai entrar numa paranoia coletiva." O silêncio que se seguiu não era de consenso, era de reflexão. A mesa agora estava dividida em linhas invisíveis. Não era mais apenas sobre Dora ou Rafael. Era sobre narrativa. E sobre quem conseguiria controlar qual história seria acreditada. Selton Mello ergueu a mão com firmeza. "Chega!" A única palavra foi suficiente para silenciar a mesa. Ele aguardou alguns segundos, deixando que o peso do momento se acomodasse. "As posições já foram colocadas. As suspeitas, lançadas. Continuar repetindo argumentos não vai mudar o que precisa ser feito agora." Seu olhar percorreu cada participante, um por um. "Está na hora de encerrar as conversas." Uma pausa. "Vamos começar a votação." O som das respirações parecia mais alto do que nunca. Porque, dali em diante, não seriam mais palavras. Seriam nomes.

Um a um, os participantes se levantaram para registrar seus votos, o som da caneta riscando as placas ecoando mais alto do que deveria naquela sala silenciosa. Amélie foi a primeira. Com postura firme, escreveu o nome de Rafael. Disse que, para ela, ele havia sido estratégico demais ao tentar plantar dúvidas sem assumir acusações claras. Helena votou em Rafael também. Explicou que o desconforto dele ao ser confrontado pesou mais do que qualquer argumento. Penélope, visivelmente nervosa, escreveu Rafael. Disse que sentiu que ele tentou conduzir narrativas ao longo do dia. Dora levantou-se em seguida e votou em Rafael, afirmando que quem espalha suspeita pelas sombras precisa sustentar o peso dela à mesa. Fabrício também escolheu Rafael. Para ele, a tentativa de desviar o foco perguntando "quem contou" foi mais reveladora do que qualquer defesa. Rosiane votou em Rafael por sentir incoerência entre o discurso dele e sua postura na mesa. Dimas escreveu Rafael, dizendo que análise é válida, mas plantar desconfiança seletiva é estratégia. Marcela seguiu na mesma linha e votou em Rafael, afirmando que ele parecia sempre um passo à frente, mas nunca exposto. Bianca, com expressão difícil de ler, também votou em Rafael. Disse que, diante do cenário, ele era quem apresentava mais inconsistências. Lorena escreveu Rafael e afirmou que a tentativa de transformar defesa em "pacto" foi uma manobra arriscada demais. Maurício votou em Rafael por considerar que a construção de narrativa contra Dora foi precipitada e conveniente. Quando chegou sua vez, Rafael se levantou sob o peso evidente da maioria já formada. Escreveu Dora. Disse que ela foi rápida demais em direcionar a conversa para ele, como se precisasse controlar o rumo da votação. Matheus votou em Rafael, alegando que a pressão que ele sofreu revelou mais nervosismo do que convicção. Núbia escreveu Rafael, dizendo que precisava confiar na própria intuição e que algo nele não parecia verdadeiro. Caio foi um dos poucos a quebrar o padrão. Votou em Dora, afirmando que via nela uma habilidade perigosa de articulação e controle emocional. Estela também escolheu Rafael. Disse que, ao longo do dia, percebeu que ele fazia perguntas demais e se comprometia de menos. Por fim, Icaro escreveu Rafael, declarando que a sensação de manipulação nas conversas paralelas o incomodou profundamente. O grupo decidiu: Rafael seria o banido desta noite.

Selton Mello levantou-se lentamente. "Rafael. Por favor, levante-se e dirija-se ao circulo central para revelar sua verdadeira identidade." As cadeiras rangeram levemente quando Rafael se levantou. Ele respirou fundo, ajeitou a roupa e caminhou até o centro da sala, onde a iluminação era mais intensa. Cada passo parecia ecoar como um tambor em câmara lenta. Ele parou diante do símbolo do jogo, olhando para a mesa uma última vez. Alguns evitavam encará-lo. Outros sustentavam o olhar com expectativa quase ansiosa. Rafael passou a mão pelo rosto e soltou um pequeno riso nervoso. "Engraçado... Eu passei o dia inteiro tentando fazer vocês pensarem. Tentando proteger o grupo de decisões precipitadas." começou, em tom calmo, mas carregado de emoção. "Vocês acham mesmo que um Traidor bateria de frente desse jeito?" ele continuou, a voz ficando mais intensa. "Se vocês me banirem hoje achando que fizeram a escolha certa... Eu só espero que não percebam tarde demais que eliminaram alguém que estava do lado de vocês." Um ou dois participantes começaram a demonstrar dúvida evidente. Ele fez uma pausa longa. Então, lentamente, um sorriso diferente surgiu em seu rosto. Menos vulnerável. Mais frio. "Ou talvez... Vocês tenham finalmente acertado."  completou, a voz agora firme. "Porque eu não sou um Fiel." A sala pareceu perder o ar. Rafael sustentou o olhar coletivo e concluiu: "Eu sou um Traidor." O choque se espalhou pela mesa, mãos na boca, olhos arregalados, respirações interrompidas. E enquanto alguns absorviam o impacto da revelação, uma verdade silenciosa ecoava no castelo: A caça tinha acertado um alvo. Rafael então deixava a mesa redonda de uma vez por todas. 

Por um segundo após a revelação, ninguém se moveu. Então a ficha caiu. Penélope levou as duas mãos ao rosto e soltou um grito abafado. Helena bateu na mesa, incrédula. Dimas se recostou na cadeira com um sorriso de pura confirmação. "Eu sabia!" Matheus exclamou. O clima que antes era tensão virou explosão. Fabrício levantou-se, apontando para o centro da sala. "A gente conseguiu!" Amélie respirava fundo, quase rindo de nervoso. "Finalmente acertamos." Núbia abraçou Estela, repetindo "Meu Deus" várias vezes, agora com alívio na voz. Maurício balançava a cabeça positivamente, como se estivesse validando cada suspeita que teve ao longo do dia. Até Rosiane, sempre tão controlada, permitiu um pequeno sorriso de satisfação. Não era apenas uma eliminação. Era a confirmação de que eles não estavam completamente perdidos. Que era possível, sim, encontrar um Traidor. No centro da sala, quando o barulho começou a diminuir, Selton Mello levantou-se novamente. Ele esperou o silêncio se restabelecer. "Hoje, vocês fizeram algo importante." Seu olhar percorria cada rosto, agora iluminado por uma mistura de orgulho e alívio. "Identificaram e baniram um Traidor." Uma breve pausa. "Isso não é simples. Exige coragem. Exige atenção. Exige que vocês enfrentem o desconforto de duvidar uns dos outros." Alguns assentiram, ainda sorrindo. Mas o tom dele mudou sutilmente. "Porém..." O silêncio voltou a pesar. "Não confundam vitória com tranquilidade." Os sorrisos começaram a desaparecer. "Ainda existem Traidores trabalhando nas sombras deste castelo." Ele deixou a frase ecoar. "E, enquanto vocês comemoram, eles já estão pensando no próximo movimento." A euforia deu lugar à consciência. Sim, eles haviam acertado. Mas a guerra estava longe de terminar.

Conheça os personagens: Amélie ClaveauxBernardo AzevedoBianca NogueiraCaio MontenegroDimas HadlichDora MachadoEstela MartinsFabricio MolinaroHelena BrandãoIcaro FigueiredoLeandro VasconcelosLorena BastosMarcela CoutinhoMatheus LacerdaMauricio CamposNathaniel PuigNúbia BianchiPenélope FalcãoRafael PachecoRosiane SetaSharon Sheetarah e Verônica Lux.

LEMBRANDO QUE: Esta coluna é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Todos os direitos de criação das personagens e suas histórias são reservados. Este material não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem autorização. © 2015 - 2026

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