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terça-feira, 12 de maio de 2026

SRA - Edge of Extinction: 8x24 - Um Destino, Duas Tochas


O sol mergulha atrás da linha do horizonte, pintando o céu com tons de violeta e laranja queimado, que rapidamente cedem lugar a uma penumbra densa. O ar torna-se mais frio, saturado pelo aroma de maresia e fumaça de madeira. O caminho até o local do Conselho Tribal é iluminado apenas pela luz oscilante das quatro tochas que o Grupo Azul carrega. A trilha, ladeada por rochas vulcânicas e vegetação cerrada, parece um túnel que leva ao coração das trevas da ilha. Ao chegarem à clareira do Conselho, o ambiente é dominado pela estrutura de madeira rústica e pelas chamas altas que dançam em um braseiro central, projetando sombras longas e distorcidas nas faces dos competidores. Glenda já está em sua posição, imponente, com o olhar focado na entrada do grupo. "Boa noite, sobreviventes", a voz dela ecoa, firme e sem ressonância na imensidão da mata. O silêncio que se segue é absoluto, quebrado apenas pelo estalar constante do fogo. Ela gesticula para o suporte ao lado da entrada. "Antes de prosseguirmos, coloquem suas tochas no suporte. Lembrem-se: elas representam a sua vida neste jogo. Quando a sua chama é apagada, a sua jornada aqui chega ao fim." Benedito, Clarisse, Flora e Yago, movendo-se com cautela, posicionam suas tochas. As chamas, agora fixas, parecem vigiar os quatro enquanto eles se acomodam nos bancos de madeira, o conforto dos assentos em nítido contraste com o frio que sentem na espinha. Glenda faz uma pausa, seu olhar percorrendo cada um deles antes de se desviar para a penumbra lateral da clareira. "O júri, composto pelos competidores anteriormente eliminados, pode entrar." Um movimento sutil nas sombras revela os rostos de quem já provou o amargo da derrota. Eles caminham em silêncio, uma procissão silenciosa, e ocupam seus assentos em um nível superior, observando tudo como estátuas. Glenda aguarda até que o último deles se acomode. O peso dos olhares do júri sobre os quatro sobreviventes é quase palpável. A apresentadora aguarda o último estalo da fogueira diminuir. Quando o silêncio se torna total, quase opressor, ela inclina levemente a cabeça, os olhos brilhando à luz das brasas. "A noite está escura e a ilha está atenta. Vocês chegaram a este ponto superando limites que a maioria não ousaria tocar, mas agora, o círculo se fecha ainda mais. Estamos prontos para dar início a este Conselho Tribal?"

Glenda solta um riso seco, um som que parece vibrar com a mesma periculosidade daquela noite. "A beleza se é que podemos chamar assim, dos conselhos duplos é que eles são o terreno fértil para a insanidade", ela começa, caminhando lentamente ao redor do braseiro, as sombras dançando sobre seu rosto. "Vocês estão jogando no escuro. Enquanto vocês estão aqui, sentados nestes bancos, o outro grupo está vivendo uma realidade completamente diferente, talvez tomando decisões que farão o chão de vocês tremer. Alianças estão fragmentadas e, sinceramente? É aqui que o jogo de verdade acontece." Ela para de caminhar e fita o grupo com um sorriso astuto. "Então, me digam... Hoje é uma noite para diplomacia ou vocês planejam trazer alguma dose de travessura para este Conselho Tribal?" Um riso nervoso, porém carregado de ironia, escapa dos quatro competidores. A tensão entre o grupo parece momentaneamente suspensa pela pergunta. Flora é a primeira a se manifestar, com um brilho desafiador nos olhos enquanto cruza as pernas, mantendo a postura impecável apesar da derrota na prova. "Glenda, aqui dentro, a palavra "impossível" não existe. Tudo é possível quando você está com as costas contra a parede." Benedito, que mantinha o corpo relaxado e os braços apoiados no banco, solta uma risada curta, demonstrando uma confiança que beirava a arrogância. "Eu diria que quase tudo é possível, Flora. Mas a minha eliminação hoje, por exemplo, definitivamente não é uma possibilidade." Ele faz uma pausa, seu olhar encontrando o dela. "Já que, como você bem sabe, eu tenho a proteção da imunidade." Flora revira os olhos de forma teatral, um escárnio nítido contorcendo seu lábio. "Certo. Então quase tudo", rebate ela, a voz carregada de veneno, enquanto desvia o olhar para o fogo. Glenda observa a troca de farpas com prazer, como quem assiste a um duelo de gladiadores. Ela olha para o grupo, fazendo uma leitura precisa da divisão clara ali presente. "Dois de um lado, dois do outro. Uma divisão matemática perfeita que geralmente precede o caos. O que isso significa para o futuro de vocês aqui dentro?" Clarisse, que até então estava em silêncio, observa Benedito e Yago com um olhar cortante antes de encarar a apresentadora. Sua voz é fria, carregada de uma expectativa sombria. "Significa que ninguém aqui tem a resposta completa, Glenda", diz ela, com um meio sorriso que não chega aos olhos. "Talvez a gente só descubra o que essa divisão realmente significa na hora de abrir os votos."


Glenda observa o clima de suspense que tomou conta da clareira e decide encerrar a retórica. "Bem, as palavras já foram ditas. É hora de transformar as intenções em votos. Benedito, como você é o detentor da imunidade, será o primeiro." Benedito levanta-se com calma, caminha até a urna rústica de madeira e deposita seu voto com uma firmeza que beira o deboche. Logo atrás, Flora segue o mesmo trajeto, seu rosto uma máscara de determinação gélida. Clarisse caminha em seguida, o passo leve, mas o olhar fixo. Por fim, Yago se aproxima da urna, hesita por uma fração de segundo e deposita o voto final. Quando todos retornam aos seus lugares, Glenda retira a urna do pedestal e a coloca sobre a mesa central. Ela volta-se para os quatro sobreviventes com uma expressão séria. "Este é o momento decisivo. Se alguém tiver um Ídolo de Imunidade ou qualquer vantagem que deseje utilizar para alterar o curso desta votação, a hora é agora." O silêncio na clareira é absoluto. Ninguém se move. Nenhum competidor levanta a mão ou se dirige à urna. Glenda sustenta o olhar sobre eles por alguns segundos, conferindo a hesitação em cada um, antes de assentir. "Muito bem. Vou proceder com a leitura dos votos." Ela abre o primeiro papel. "Primeiro voto: Flora." Ela abre o segundo. "Um voto para Yago." Ela abre o terceiro. "Mais um voto para Yago." A tensão é sufocante enquanto ela abre o último papel. "Dois votos para Yago. Dois votos para Flora" Glenda faz uma pausa dramática, segurando os papéis. O grupo trava. Yago parece buscar ar, enquanto Flora mantém a postura, embora seus dedos estejam cravados no banco de madeira. Glenda continua, sua voz cortando o clima tenso: "Como houve um empate, vamos proceder com uma nova votação. Nesta rodada, somente Flora e Yago podem ser votados. Como vocês dois são os alvos, vocês não podem votar." Ela vira-se para os dois restantes. "Benedito e Clarisse, vocês terão que decidir quem deixa o jogo. Vou perguntar a vocês agora, vocês estão dispostos a mudar de opinião ou manterão seus votos anteriores?" Benedito responde quase instantaneamente, com um tom de voz gélido: "Não mudo. Mantenho minha decisão." Clarisse, sem hesitar e encarando o aliado de Benedito com desprezo, responde prontamente: "Também não mudo. Minha posição continua a mesma." Glenda suspira, sentindo a inevitabilidade da situação. Ela olha para os quatro, percebendo que a diplomacia chegou ao fim. "Já que ninguém cede, não há necessidade de uma nova votação. Como vocês não chegaram a um consenso, teremos que utilizar o critério de desempate oficial para decidir a eliminação."

Glenda faz um sinal para que os assistentes entrem na área central. "Nesta temporada, o desempate não será decidido pela sorte, mas pela habilidade sob pressão extrema. Flora, Yago, dirijam-se às suas plataformas." As duas estruturas de madeira são posicionadas frente a frente, separadas pelo braseiro principal. Cada competidor recebe um kit básico: Uma pequena porca de aço, uma pederneira e uma seleção de fibras secas de coco. À frente de cada um, uma corda de sisal tensionada sustenta uma pequena bandeira de honra. "O objetivo é simples, mas implacável: Vocês devem fazer fogo o suficiente para que a chama suba e queime a corda que está diante de vocês. O primeiro a fazer a corda romper, garante a permanência no jogo." Clarisse, sentindo a gravidade do momento, inclina-se na direção de Flora. "Mantenha a calma, Flora. Não force. Apenas concentre o calor no lugar certo. Boa sorte," ela murmura, com uma voz carregada de uma urgência contida. Do outro lado, Benedito mantém sua postura fria, inclinando-se para Yago com um brilho de instrução no olhar. "Yago, não olhe para ela. Esqueça que ela existe. Prepare o ninho, respire devagar e deixe a faísca fazer o trabalho. Não queime etapas," ele instrui, mantendo o controle total da situação. "Flora... Yago... valendo!" No mesmo instante, o som metálico das peças de metal raspando contra a pedra corta o silêncio do Conselho Tribal. Yago começa com movimentos rápidos e agressivos, tentando encontrar o ângulo certo para gerar a primeira centelha, enquanto Flora, com as mãos mais firmes, foca em preparar uma base de fibras impecável, quase como se estivesse tecendo o próprio destino. As primeiras faíscas saltam no escuro, pequenas estrelas alaranjadas que morrem antes de tocar o material, mas o desafio está apenas começando.

A tensão no ar é palpável, quase elétrica. Yago, impulsionado pela instrução metódica de Benedito, começa a encontrar seu ritmo. Seus movimentos, antes erráticos, tornam-se constantes e precisos. Uma pequena voluta de fumaça cinzenta começa a subir da base de fibras dele, sinalizando que a ignição está próxima. "Isso, Yago! Mantém o ritmo, não para agora!" Benedito incentiva, sua voz ecoando pela clareira silenciosa. Yago, encorajado, sopra suavemente sobre o ninho de fibras. Uma pequena brasa alaranjada ganha vida, brilhando intensamente no centro do material seco. Ele transfere a brasa para a estrutura principal, e uma língua de fogo começa a lamber as lascas de madeira, crescendo rapidamente em direção à corda. O grupo do júri murmura em choque, Yago está claramente na frente. Do outro lado, Flora parece estar lutando contra o tempo. Ela ainda está na fase da faísca, a frustração evidente em suas sobrancelhas franzidas. Clarisse cerra os punhos, observando a chama de Yago crescer. No entanto, Flora faz algo inesperado: ela para. Por um segundo, ignora o fogo de Yago e respira fundo, fechando os olhos para se isolar da pressão. Quando os abre, seus movimentos mudam. Ela para de tentar "forçar" a ignição e passa a focar na oxigenação da base que preparou. Enquanto a chama de Yago começa a arder com força, ele comete o erro clássico do excesso de confiança, ele joga galhos maiores antes que a chama principal esteja estável o suficiente. A fumaça preta substitui o fogo vivo por um momento crítico. Ele tenta soprar, mas o oxigênio está abafado. Flora não perde o ritmo. Sua base, meticulosamente preparada, entra em combustão de uma vez só. O fogo, pequeno, mas faminto, sobe rápido pelas fibras de coco. Enquanto Yago luta para reanimar seu braseiro, a chama de Flora atinge uma altura constante, subindo vorazmente pela estrutura de madeira. O calor é intenso. "Vai, Flora! Agora!" Clarisse grita, quebrando o silêncio do júri. Flora observa o fogo subir com olhos frios. A chama atinge a corda de sisal. O material começa a escurecer, carbonizar e, num estalo seco, a fibra se rompe. A bandeira cai no chão com um baque surdo. Glenda exclama, sua voz cortando o ar: "Corda rompida! Flora está a salvo!" Yago solta um gemido de derrota, observando sua própria chama finalmente subir, mas segundos tarde demais. O silêncio que se segue na clareira é pesado, carregado pela consciência de que, para um deles, a jornada no jogo acaba naquele exato instante.

Glenda caminha até o centro da clareira, o olhar fixo em Yago, que se mantém de pé com a dignidade de quem lutou até o último suspiro. "Flora, o seu foco sob pressão foi impecável. Você sobreviveu a um momento que derrubaria muitos outros competidores. Pode voltar para o seu banco." Ela então se volta para Yago, com uma expressão solene. "Yago, infelizmente, o tempo acabou. Sua jornada termina aqui. Por favor, traga sua tocha." O rapaz caminha até o centro, passando pelo olhar atento de seus companheiros. Antes de chegar à apresentadora, ele para brevemente, olhando nos olhos de Flora. "Foi um bom jogo, Flora. Uma vitória justa. Você mereceu ficar." A moça apenas acena com a cabeça, um agradecimento silencioso pela honra na derrota. Ele entrega a tocha. Glenda a segura sobre o braseiro e, com um movimento firme, a apaga. O som do chiado da chama morrendo parece ecoar por toda a clareira. "A tribo decidiu. Seu tempo aqui acabou." Yago, porém, não se move para fora da clareira. Glenda faz um gesto para o suporte lateral, onde os rostos observadores do júri se alinham. "Você não fará o caminho dos eliminados. A partir de agora, seu papel mudou. Junte-se ao júri." O rapaz caminha em direção aos eliminados e se senta, agora como um espectador daquele tabuleiro que ele tanto ajudou a montar. Quando o silêncio retorna à clareira, Glenda se volta para Benedito, Clarisse e Flora. "Vocês viram a rapidez com que a lealdade pode se transformar em cinzas. Esta noite, vocês jogaram com números e matemática, tentando prever o imprevisível", diz Glenda, sua voz ressoando como um aviso. "Mas lembrem-se: O que aconteceu aqui não foi apenas sobre quem fez fogo mais rápido. Foi sobre a incapacidade de ceder. Benedito e Clarisse, vocês apostaram tudo na rigidez de suas posições, e quase perderam um aliado importante por causa disso. O jogo de vocês é estratégico, sim, mas a falta de flexibilidade é a brecha pela qual o caos entra. Flora, você provou que a sobrevivência é um ato individual, mas a sobrevivência solitária tem um preço alto a longo prazo. O jogo de vocês mudou agora. Levem essa tensão de volta ao acampamento, porque se o fogo da desconfiança continuar aceso, a próxima corda a queimar pode ser a de um de vocês." Ela faz uma pausa, deixando as palavras pesarem no ar gelado da mata. "Estão dispensados. Podem retornar ao acampamento."

Enquanto os três sobreviventes se afastam em fila única, sob a luz vacilante de uma última tocha que guia o caminho pela trilha escura, o foco se desloca para a imagem de Yago. Ele está sentado na área do júri, com as mãos apoiadas nos joelhos, olhando para o fogo do Conselho que, para ele, não aquece mais. "Participar disso aqui... Eu nem sei explicar", Yago começa, com a voz embargada, mas serena. "Quando eu pisei naquele barco, lá atrás, eu era só um cara querendo aventura. Eu não tinha noção do peso que é o isolamento, da fome constante que drena sua capacidade de raciocínio, ou da dificuldade de olhar no olho de alguém que você compartilha o café da manhã e ter que escrever o nome dela no papel para eliminar." Ele suspira, olhando para o horizonte. "A minha maior dificuldade não foi a prova, foi o jogo social. Manter a coerência enquanto o chão mudava de lugar o tempo todo... Ver a Sônia sair, ver o grupo se despedaçar com a história do ídolo do Renato... a gente cria laços, e o jogo te obriga a cortá-los. Eu perdi para a Flora, ela foi melhor hoje, e está tudo bem. Eu saio com a cabeça erguida, sabendo que joguei cada segundo com verdade." A câmera corta para o close na urna de madeira onde é revelado os votos escritos: Benedito votou em Flora, Clarisse votou em Yago, Flora votou em Yago e Yago votou em Flora. 

O silêncio na ilha é quase absoluto quando o Grupo Vermelho, Carolina, Hugo, Lídia e Renato, emerge da mata, guiados pela luz vacilante de suas tochas. O caminho é curto, mas a distância entre eles parece imensurável após as revelações da noite anterior. Ao chegarem à clareira, o cenário é familiar, mas a atmosfera está saturada de uma tensão gélida e inominável. Glenda aguarda, sua silhueta recortada contra o brilho das chamas que dançam no braseiro central. "Boa noite," a voz de Glenda corta a penumbra, autoritária e fria. "Sobreviventes, posicionem suas tochas." Um a um, eles se aproximam do suporte lateral. Carolina deposita a sua com um movimento seco; Hugo mantém o olhar fixo no fogo, Lídia respira fundo, as mãos levemente trêmulas; e Renato coloca a sua por último, sentindo o peso dos olhares dos companheiros. "Lembrem-se," Glenda repete o ritual, o olhar percorrendo o grupo, "estas tochas representam a vida de vocês neste jogo. Uma vez que a chama é apagada, a jornada de vocês chega ao fim." Os quatro se acomodam em seus bancos. O conforto rústico não consegue amenizar a rigidez em suas posturas. Glenda, então, gesticula para o nível superior da clareira. "Como vocês podem ver, a dinâmica do grupo azul foi definida. Yago foi eliminado no conselho anterior e agora integra o corpo de jurados." Yago, agora posicionado entre os eliminados, observa o grupo vermelho com um semblante neutro, quase impenetrável. Glenda repassa o lembrete de praxe: "O júri está aqui apenas para observar. Não é permitida qualquer manifestação ou interferência no processo de votação." A apresentadora permite que o silêncio se instale. Ela observa Carolina, que evita olhar para Renato, observa Hugo, cujos dedos tamborilam no assento de madeira; e observa Renato, que parece um estranho entre os aliados. Quando o estalar da fogueira se torna o único som na clareira, Glenda inclina o rosto para a luz. "O jogo não descansa, e as feridas abertas não esperam pela manhã. Estamos prontos para dar início a este segundo Conselho Tribal da noite?"

Glenda observa a reação de cada um, mantendo uma expressão de quem conhece exatamente os segredos escondidos sob aquela areia. Ela dá um passo em direção ao grupo, deixando que a luz da fogueira ilumine o ceticismo em seu olhar. "É curioso como a percepção de controle desmorona em apenas alguns minutos," Glenda comenta, a voz suave, mas cortante. "Vocês olham para o Yago ali no banco do júri e, para vocês, isso não é apenas uma eliminação, é um erro de cálculo. Como é ver um aliado, alguém que dividiu o acampamento e as estratégias com vocês, sentado onde só observadores deveriam estar? E, mais importante, o que vocês acham que aconteceu no outro lado da ilha?" Hugo endireita a postura, o semblante de quem busca uma lógica que simplesmente não existe. "Estou completamente chocado, Glenda. Sinceramente, não consigo entender," ele diz, com a voz firme, mas revelando um fundo de apreensão. "Tínhamos um plano, tínhamos uma direção. Se o Yago saiu, algo saiu terrivelmente errado, ou alguém mudou de rumo de forma drástica. A única coisa que eu espero, e rezo é que o Benedito não tenha nos traído. Se o nosso núcleo se quebrou, o jogo mudou de patamar." Carolina balança a cabeça negativamente, visivelmente desconfortada. "É impactante, não tem outra palavra," ela complementa, desviando os olhos para o chão. "Eu tinha convicção absoluta de que Flora ou Clarisse seriam as eliminadas. Elas eram o alvo óbvio, a ameaça clara. Ver o Yago lá em cima... Me faz questionar tudo o que a gente achava que sabia sobre o Grupo Azul." O clima, que já estava tenso, sofre uma mudança brusca quando Lídia se move no banco. Ela olha diretamente para Renato, sem esconder a ponta de desconfiança que agora dita suas palavras. "Talvez o problema não seja só o que aconteceu lá," ela diz, com um tom incisivo. "Talvez o problema seja o que temos aqui. Se o Yago saiu, tudo é possível. Quem garante que não temos mais alguém aqui, escondendo um ídolo de imunidade, exatamente como o Renato fez? Se a gente não sabia do dele, o que mais está escondido nas mangas dessa aliança?" Renato, que até então permanecia em um silêncio calculista, sente o peso das palavras de Lídia. O grupo inteiro vira-se para ele, e a fogueira parece arder um pouco mais intensamente, refletindo a desconfiança que agora consome o Grupo Vermelho.

Glenda permite que o silêncio de Lídia e a reação defensiva de Renato ecoe pela clareira por alguns instantes. O clima de desconfiança atingiu um nível crítico, e a apresentadora percebe que não há mais espaço para palavras. "Bem," ela diz, levantando-se e rompendo a tensão, "a dúvida é o combustível do medo, e o medo é o que separa quem fica de quem sai. Chegou o momento. É hora de votarem." Hugo é o primeiro a se levantar, caminhando com passos decididos em direção à urna de madeira, sem olhar para os lados. Lídia o segue, mantendo a expressão fechada. Carolina levanta-se em seguida, um suspiro profundo escapando de seus lábios antes de se aproximar da urna. Por último, Renato caminha lentamente, o peso da desconfiança de seus aliados estampado em cada movimento. Quando todos retornam aos seus bancos, o silêncio volta a reinar, quebrado apenas pelo estalar das brasas. Glenda retira a urna do pedestal. "Este é o momento decisivo," ela anuncia, seu olhar varrendo o grupo. "Se alguém tiver um Ídolo de Imunidade ou qualquer vantagem que deseje utilizar, a hora é agora." Renato mantém a mão imóvel. Hugo e Lídia permanecem estáticos. Carolina olha para o fogo, resignada. Ninguém se manifesta. Glenda, então, começa a leitura dos votos. "Primeiro voto: Carolina." Carolina pisca, um movimento quase imperceptível. "Segundo voto: Renato." O olhar de Renato se estreita, o foco voltando para a urna. "Terceiro voto: Carolina." A respiração de Carolina falha por um breve segundo. O ar na clareira parece ter sido drenado. Glenda abre o último papel, mantendo a expressão neutra que é sua marca registrada. "E quem deixa a competição hoje, tornando-se o sexto membro do júri... é você, Carolina." Carolina fecha os olhos por um instante, um sorriso melancólico surgindo em seu rosto. Ela se levanta, recompõe a postura e, antes de caminhar em direção a Glenda, lança um último olhar para o grupo, um misto de decepção e compreensão. "Carolina, traga a sua tocha."


Carolina levanta-se, os olhos ainda carregando o choque da revelação. Ela solta uma risada curta, incrédula. "Eu realmente não vi isso chegando. Achei que estávamos mais alinhados do que isso", admite, com a voz embargada, mas tentando manter a compostura. Hugo e Lídia trocam olhares rápidos antes de murmurem um "sinto muito" apressado, a culpa transparecendo na hesitação de suas vozes. Carolina apenas balança a cabeça, soltando um suspiro longo que parece carregar o peso da decepção. "Está tudo bem. Não peçam desculpas. É o jogo, não é? Eu entendi as regras desde o primeiro dia. Só não esperava que o golpe viesse de quem deveria estar segurando o meu braço." Ela se aproxima de Glenda, pega sua tocha com firmeza e a coloca diante da apresentadora. O sopro de Glenda apaga a chama, e o chiado da fumaça subindo ao céu noturno marca o fim definitivo da trajetória de Carolina. "A tribo decidiu", decreta Glenda. Sem olhar para trás, Carolina caminha em direção à saída da clareira, perdendo-se na escuridão da trilha dos eliminados. O silêncio que fica é pesado, cortado apenas pelo som dos passos que se afastam e desaparecem na mata. Glenda observa a moça partir até que sua silhueta seja totalmente engolida pela penumbra. Ela então se volta para Hugo, Lídia e Renato, que parecem subitamente menores em seus bancos. "Vocês acabaram de eliminar um dos seus, buscando segurança na paranoia", Glenda começa, sua voz pairando sobre a fogueira. "Lídia, você questionou a lealdade de Renato. Hugo, você buscou lógica onde só havia desconfiança. Vocês sentiram o cheiro do medo e o transformaram em votos. Mas cuidado: ao eliminarem alguém que estava, de fato, do lado de vocês, vocês não apenas encurtaram os números do grupo, vocês oficializaram que aqui, ninguém mais é seguro. O segredo de um é a sentença de morte do outro. O caminho de volta para o acampamento será longo, porque agora vocês não estão apenas voltando para um abrigo, estão voltando para um lugar onde a confiança morreu esta noite." Ela aponta para a trilha. "Estão dispensados. Podem retornar."

Enquanto os três sobreviventes caminham em silêncio pela trilha de terra batida, a luz das tochas balançando ao ritmo de passos hesitantes, a imagem corta para o depoimento de Carolina. Ela está sentada na área de entrevista, a iluminação noturna destacando as olheiras profundas e a marca da fuligem em seu rosto, mas seu semblante é de uma tranquilidade surpreendente. "Eu sabia que o risco era real, mas a gente sempre quer acreditar que a aliança é mais forte do que o medo," ela começa, com um sorriso triste, mas sincero. "A maior dificuldade desse jogo não é a fome, nem o cansaço físico das provas. É a solidão acompanhada. Você divide o teto, a comida, o sono com pessoas que, no minuto seguinte, estão desenhando o seu nome num papel. Eu joguei com o coração, talvez tenha sido esse o meu erro." Ela faz uma pausa, olhando para as próprias mãos calejadas. "Ver o Yago sair lá do outro lado e, logo em seguida, perceber que o meu próprio grupo se voltou contra mim... É uma lição dura. Eu entrei aqui querendo provar que a lealdade vencia, mas a ilha provou que o instinto de sobrevivência é muito mais barulhento. Eu saio triste, mas consciente de que não comprometi os meus valores. A Carolina que entra no mar amanhã não é mais a mesma que chegou aqui, e isso, no fim das contas, é o maior prêmio que eu poderia levar." A câmera se afasta e, sobre o som ambiente da selva noturna, os votos da noite aparecem na tela, revelando a fratura final do grupo vermelho: Carolina votou em Renato, Hugo votou em Carolina, Lidia votou em Carolina e Renato votou em Carolina.


LEMBRANDO QUE: Esta coluna é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Todos os direitos de criação das personagens e suas histórias são reservados. Este material não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem autorização. © 2015 - 2026

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