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sexta-feira, 15 de maio de 2026

SRA - Edge of Extinction: 8x27 - O Abismo da Confiança


O retorno ao acampamento é acompanhado apenas pelo som dos grilos e o estalar seco dos galhos sob os pés dos quatro sobreviventes. O clima é de um sepulcro, a ausência de Benedito deixou um vácuo que ninguém ousa preencher. Eles caminham como sombras, evitando o contato visual, cada um mergulhado na própria estratégia ou no remorso. Ao chegarem ao centro da área de convívio, eles se dispersam como se o próprio ar estivesse carregado de eletricidade estática. Ninguém se manifesta. Hugo se senta na beira do poço com o olhar perdido, enquanto Lídia caminha em círculos, as mãos na cintura, mantendo uma distância segura dos demais. Renato, incapaz de suportar a asfixia daquele silêncio, para de arrumar suas coisas e vira-se para o grupo. Sua voz sai rouca, mais baixa do que pretendia. "A gente vai ficar aqui se olhando ou alguém vai falar alguma coisa? Hugo, Lídia... Vocês querem conversar sobre o que aconteceu lá? Sobre o ídolo?" Ele respira fundo, encarando os dois. "Eu sei o que parece. Eu sei o que vocês pensam sobre eu ter dado o meu ídolo para a Flora. Mas eu não podia ter deixado ela sair. Aquele acordo que a gente tinha para eliminar ela... Ele não pesou mais do que o que eu senti que precisava fazer." Lídia para bruscamente de andar. Ela se vira para Renato com uma lentidão calculada, os olhos faiscando, mas a voz carregada de um choque que parece quase coreografado. "Conversar, Renato? Você quer conversar?" ela dispara, dando um passo em direção a ele. "Eu não tenho nem palavras agora. Sinceramente. Eu entendo, de verdade, que você tinha uma aproximação pessoal com ela, mas a gente tinha um acordo. Um pacto de sangue para tirar a Flora hoje. Você não só quebrou a nossa aliança, você entregou o nosso jogo na mão de quem a gente estava tentando derrotar." Do outro lado do acampamento, longe o suficiente para não serem ouvidas, Flora observa a cena enquanto se limpa da sujeira do conselho. Ela lança um olhar de soslaio para Clarisse, que está sentada num tronco, observando o drama com um sorriso de lado. "Olha só para a Lídia, Clarisse" Flora murmura, contendo um riso de puro escárnio enquanto aponta discretamente para a aliada. "Se ela sair daqui hoje, pode ir direto para a secretaria de elenco da emissora. Contratada como atriz principal na hora. Olha esse teatro de quem "não sabia de nada"... Ela é a pessoa mais perigosa nesse jogo e ainda consegue convencer o Hugo de que foi pega de surpresa."

Hugo se levanta, o rosto contraído em uma expressão de desdém que dói mais que qualquer grito. Ele encara Renato com um olhar de quem acaba de perder um aliado que considerava inquebrável. "Estou completamente decepcionado, Renato" Hugo diz, a voz firme e cortante. "De todas as pessoas aqui, eu achei que você seria o único que teria a palavra firme, o único que jogaria limpo com o combinado. Mas pelo visto, todo mundo tem seu preço, não é? Parabéns, você acabou de mostrar que a sua lealdade é negociável." Renato tenta dar um passo à frente, as mãos estendidas em um gesto de súplica, mas Hugo não lhe dá o benefício da escuta. Ele vira as costas e caminha em direção à mata, deixando Renato estático no meio da clareira. O rapaz, desesperado, volta-se para Lídia, buscando qualquer brecha para se explicar. "Lídia, por favor, me escuta..." Lídia nem sequer olha para ele enquanto arruma suas coisas, sua expressão é uma máscara de frieza profissional. "Não tem o que conversar agora, Renato" ela responde, secamente. "As feridas estão abertas, o clima está pesado demais. É preciso deixar o sangue esfriar antes que a gente se mate aqui dentro. Não estraga o pouco de sanidade que sobrou nessa noite." Ela vira as costas e segue na direção oposta, deixando Renato sozinho, cercado apenas pelo som distante dos animais noturnos e pelo peso insuportável de suas próprias escolhas. Em depoimento confessional: A luz do confessionário é dura, revelando o rosto inchado de Renato. Ele tenta falar, mas o soluço interrompe o início da frase. Ele esconde o rosto nas mãos por longos segundos, tentando recuperar o fôlego. "Eu não queria que as coisas fossem assim..." ele confessa, a voz trêmula. "Eu estou feliz pela Flora, de verdade. Eu queria que ela ficasse, eu não queria que ela saísse por causa de um plano que eu nem concordava mais. Estou no Top 5, eu deveria estar comemorando, mas eu não consigo. Sinto um peso no peito que não passa." Ele enxuga as lágrimas com o ombro, olhando para o teto do abrigo, desolado. "Saber que todos estão com raiva de mim, que eu perdi a confiança do Hugo e da Lídia... É um preço alto demais. Eu não consigo comemorar nada." Ele volta a chorar, um choro contido e exausto. "Pelo menos o programa está chegando ao fim. Eu não sei se aguentaria viver isso por muito mais tempo. Essa pressão... Ela destrói a gente por dentro."


Renato caminha em direção à área onde Flora se refugia, um pouco mais afastada da fogueira moribunda. A culpa ainda pesa em cada um de seus passos, e sua expressão é de um profundo abatimento. Flora, que mantinha uma postura vigilante, suaviza ao vê-lo se aproximar. "Como você está se sentindo?" ela pergunta, a voz baixa, quase um sussurro. Renato solta um suspiro pesado, evitando o contato visual imediato. "Estou acabado, Flora. Sinto que destruí qualquer chance de paz aqui dentro. O Hugo, a Lídia... Eles me olham como se eu fosse um estranho. Eu sei que foi minha decisão, mas ver o que eu causei... É difícil de digerir." Flora não hesita. Ela se aproxima, levando as mãos ao rosto dele, forçando-o a levantar o olhar e encará-la diretamente nos olhos. A intensidade no olhar dela é inabalável. "Escuta o que eu vou te dizer: você fez a coisa certa" ela afirma, com uma convicção que parece ancorar Renato. "Eles não valorizariam o seu jogo se você tivesse votado em mim. A gente está junto desde o começo, Renato. A gente começou essa trajetória lado a lado e vamos terminar esse programa juntos. Não deixe que o desespero deles te faça sentir que você é o vilão. Você foi leal a quem realmente esteve ao seu lado." Enquanto o clima de conforto reina entre os dois, o contraste não poderia ser maior do outro lado do acampamento. Lídia, que parecia estar recolhendo seus itens, caminha silenciosamente até Hugo, que ainda está sentado na penumbra, tentando processar a traição. Lídia se senta ao lado dele, mantendo o tom de voz em um sussurro venenoso. "Você consegue acreditar que tudo isso realmente aconteceu?" ela pergunta, o tom carregado de uma incredulidade fingida e calculada. Hugo balança a cabeça, o maxilar travado pela raiva que começa a ferver sob a superfície. "Eu ainda estou em choque, Lídia. Eu simplesmente não consigo processar. Ele entregou o jogo inteiro, a nossa hegemonia, por uma crise de consciência tardia? Eu nunca imaginei que ele fosse tão fraco emocionalmente." Lídia dá um sorriso amargo, inclinando-se para mais perto. "Fraco, egoísta e falso, Hugo. O tempo todo ele manteve aquela pose de bom moço, de quem tinha a palavra firme, e olha só o que ele fez. Ele nos usou enquanto era conveniente. A gente achou que estava aliado a um estrategista, mas estávamos apenas carregando um peso morto que, na hora da verdade, preferiu se afundar com a Flora do que vencer com a gente. Ele é um traidor, e eu não vou esquecer isso." Hugo aperta o punho, a amargura compartilhada selando um novo e furioso pacto entre os dois. "Ele vai pagar por isso" Hugo murmura, o olhar fixo no fogo, enquanto a distância entre eles e a dupla Flora e Renato se torna um abismo intransponível.

O sol da manhã castiga o acampamento, mas o calor humano entre os sobreviventes é gélido. Clarisse, observando de longe Renato caminhando isolado pela praia, aproxima-se de Lídia, que organiza seus mantimentos com uma calma quase mecânica. "Você não tem pena, Lídia?" Clarisse pergunta, o tom misturando curiosidade e um toque de escárnio. "Ver ele ali, se arrastando, pedindo desculpas pelos cantos... Você não acha que está torturando o Renato demais?" Lídia solta uma risada curta, seca, sem desviar a atenção do que está fazendo. "Pena? Clarisse, o prêmio não é entregue para quem é mais bonzinho, é para quem sobrevive até o final. Isso faz parte do jogo. Se ele foi ingênuo a ponto de se isolar, que arque com as consequências. Agora, esquece o Renato por um segundo e vamos focar no próximo passo: Ele não pode, de forma alguma, ganhar a prova de imunidade." Ela se aproxima de Clarisse, baixando o tom de voz para um sussurro estratégico. "Eu vou continuar trabalhando na cabeça do Hugo. Ele está com sangue nos olhos, é fácil manipular essa raiva. Com o meu voto e o dele, mais o seu, a gente elimina o Renato no próximo conselho. A Flora nem precisa se envolver, nem precisa votar nele para não se queimar com o "melhor amigo". Vai ser limpo." Clarisse solta uma risada genuína, um brilho de admiração maliciosa nos olhos. "Meu Deus, Lídia... Você é muito mais maquiavélica do que eu imaginava. Se eu soubesse disso lá no começo, teria te dado ouvidos bem antes." No confessionário: A câmera foca no rosto de Lídia. Ela está impecável, apesar dos dias de sobrevivência. Um sorriso quase imperceptível, mas vitorioso, brinca em seus lábios enquanto ela olha para a lente. "Estou sentindo o gostinho do prêmio final, juro. É como se eu estivesse vendo o xeque-mate antes mesmo de mover a peça" ela diz, o tom de voz calmo e deliberado. "Tudo está se alinhando exatamente como eu desenhei. O Renato se autodestruiu, o Hugo é uma marionete nas minhas mãos e a Flora acha que está no controle. Eu só espero..." ela faz uma pausa, o olhar ficando um pouco mais aguçado "...espero não ser pega de surpresa por nenhuma vantagem secreta ou ídolo escondido no próximo conselho. Seria uma pena estragar a perfeição dessa reta final. Mas, se tiver alguma, eu vou encontrar antes de qualquer um deles."


O aviso chega como uma descarga de adrenalina que interrompe a atmosfera densa do acampamento. O grupo caminha em silêncio absoluto até o campo de provas, onde a estrutura já está montada, desafiando a gravidade e a resistência física. Glenda os aguarda, impávida, sob o sol que começa a subir. "Estão preparados para mais uma prova de imunidade?" Glenda pergunta, sua voz firme cortando o ar carregado. Os cinco competidores, Renato, Flora, Hugo, Lídia e Clarisse respondem com um "sim" uníssono, ainda que cada um esteja em um estado de espírito completamente diferente. Antes de qualquer explicação, Glenda caminha até Hugo. Ela estende a mão com uma autoridade silenciosa, e Hugo, após um breve momento de hesitação, retira o colar de imunidade do pescoço e entrega à apresentadora. O objeto, agora em posse de Glenda, brilha sob a luz intensa, um lembrete de que o poder está novamente em disputa. "A prova de hoje é um teste de resistência pura" anuncia Glenda, apontando para as plataformas onde cinco cordas tensionadas se estendem por polias. "Cada um de vocês se posicionará segurando uma alça conectada a uma corda. Na outra extremidade, há um balde. Esse balde contém metade da porcentagem exata do peso corporal que vocês tinham antes de começarem este jogo. Se você soltar a alça, o balde cai, e você está fora. O último a permanecer segurando a alça vence a imunidade." A tensão entre eles é palpável. Renato evita o olhar de Hugo, enquanto Lídia ajusta sua posição com uma confiança calculada, os olhos fixos na corda que terá que sustentar. "Vocês têm exatamente um minuto para se organizarem, escolherem suas posições e se prepararem mentalmente antes de começarmos" Glenda finaliza, olhando para o cronômetro em seu pulso. "Usem esse tempo com sabedoria. O desafio começa em 60 segundos."

O cronômetro marca os segundos finais. Os cinco competidores se posicionam nas plataformas, os braços estendidos, segurando as alças com força. O peso nos baldes, calculado meticulosamente, faz com que a tensão nas cordas seja constante, uma força invisível puxando-os para baixo. "Três... Dois... Um... Comecem!" ordena Glenda. O desafio começa. O silêncio no campo de provas é absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada dos competidores e pelo som do vento soprando sobre os baldes metálicos. Os músculos dos braços e ombros de cada um começam a tremer quase instantaneamente sob a carga. Renato, visivelmente exausto após a noite mal dormida e o peso emocional de suas decisões, é o que demonstra mais dificuldade logo de cara. Seus ombros balançam e ele tenta encontrar uma base de apoio mais estável, mas a dor parece estar se concentrando intensamente no seu bíceps esquerdo. Lídia, ao lado dele, mantém o olhar fixo em um ponto no horizonte, a expressão de pedra. Hugo, por outro lado, usa a raiva como combustível, mantendo uma postura rígida, sem desviar os olhos da corda. Passam-se cinco minutos. O suor começa a escorrer pelos rostos. Renato solta um gemido baixo. O peso, que inicialmente parecia suportável, começa a agir como uma âncora, puxando seus tendões ao limite. "Tremer é normal, mas cuidado com o controle da alça!" alerta Glenda, observando a postura de cada um. Renato tenta ajustar a pegada, mas a mão começa a escorregar devido ao suor acumulado. O balde de sua estrutura oscila perigosamente. "Não... Não dá" ele sussurra para si mesmo, os dentes cerrados. Seus dedos não suportam mais a pressão. Em um movimento brusco, a alça escapa de sua mão. O balde cai instantaneamente com um estrondo metálico seco contra o solo. "Renato, fora da prova!" anuncia Glenda. Renato desaba de joelhos na plataforma, os braços pendendo inertes ao lado do corpo, a respiração arfando enquanto ele assiste, derrotado, aos outros quatro competidores permanecerem imóveis, lutando pela sobrevivência no jogo. Ele é, oficialmente, o primeiro eliminado da prova.

O desafio continua, e a marca dos vinte minutos de prova começa a pesar de forma impiedosa sobre os competidores restantes. A tensão entre o quarteto é quase elétrica, mas agora que Renato foi eliminado, o foco se volta inteiramente para a resistência de Lídia, Hugo, Flora e Clarisse. O sol já está mais alto, incidindo diretamente sobre eles, e o suor que escorre pelos olhos de Clarisse começa a se tornar um problema real. Ela tenta sacudir a cabeça para aliviar, mantendo a postura, mas a fadiga mental começa a superar a física. No campo de provas, o ambiente é de uma quietude quase irreal, interrompida apenas pelos estalidos das cordas que rangem sob a tensão constante. Lídia, que parecia a mais calma até então, percebe a oscilação de Clarisse. Ela lança um olhar rápido para Hugo, mas o rapaz nem pisca, mantendo o foco absoluto em sua própria dor. Clarisse, na tentativa de distrair a mente do latejamento em seus ombros, tenta observar o movimento de uma ave que cruza o céu sobre a clareira. É uma fração de segundo, um breve momento de perda de foco que cobra o preço máximo. A alça em sua mão perde a inclinação correta, e o balde abaixo dela dá um tranco violento, inclinando-se para frente. "Clarisse, atenção!" Glenda avisa, sua voz ecoando como um alerta severo. O susto com o chamado da apresentadora faz com que Clarisse perca o ritmo da respiração. Em vez de corrigir a postura, o pânico de sentir o peso aumentar repentinamente trava seus músculos. Ela tenta puxar a corda de volta, mas a exaustão ganha a disputa. "Eu não... Eu não consigo!" ela exclama. Seus dedos, escorregadios e trêmulos, não conseguem manter a pressão na alça. A corda escapa com uma velocidade impressionante e o balde se choca contra a plataforma de madeira com um baque surdo, ecoando pelo campo de provas. "Clarisse, fora da prova!" decreta Glenda. Clarisse solta um suspiro de frustração, inclinando o corpo para a frente enquanto a tensão deixa seus braços de uma vez. Ela desce da plataforma, visivelmente abalada por ter se distraído no momento crucial. Agora, restam apenas três: Lídia, Hugo e Flora. A disputa pelo colar de imunidade entra em sua fase mais crítica.

O sol está no zênite, transformando o campo de provas em uma estufa insuportável. Agora, restam apenas três competidores. A disputa tornou-se um duelo de nervos e resistência muscular pura. Lídia, que até então parecia ter o controle absoluto sobre o seu balde, começa a apresentar sinais claros de esgotamento. Suas pernas, que antes estavam firmes, começam a tremer ritmicamente. A postura impecável, que ela manteve durante toda a manhã, agora se curva levemente sob o peso da carga. Hugo e Flora permanecem em silêncio absoluto, a respiração de ambos é o único som que preenche o anfiteatro, além das instruções de Glenda. "Metade da prova já ficou para trás" observa Glenda, mantendo o tom profissional enquanto observa o esforço dos três. "O que vocês têm dentro da cabeça agora define se o balde cai ou se continua no ar." Lídia tenta se concentrar, mas um espasmo visível percorre seu braço direito. Ela aperta os dentes, tentando bloquear a dor, mas o esforço foi grande demais durante as últimas horas. Seu rosto, antes uma máscara de frieza estratégica, revela agora uma vulnerabilidade que ela lutou para esconder. A corda, esticada ao limite, começa a vibrar. Lídia dá um último suspiro, tentando reajustar a alça em uma tentativa desesperada de ganhar mais alguns segundos, mas seus dedos simplesmente não respondem mais. O balde, impulsionado pela gravidade, cai com uma rapidez que ela não consegue conter. "Lídia, fora da prova!" anuncia Glenda. A competidora solta a alça e desaba sobre a plataforma, o peito subindo e descendo freneticamente. O baque do seu balde contra o chão marca o fim da sua participação. Ela olha para Hugo e depois para Flora, sabendo que, embora tenha perdido a imunidade, sua mente já está tentando calcular como sobreviver ao próximo conselho sem o colar. Restam apenas dois: Hugo e Flora. A batalha pela imunidade agora se resume a um confronto direto, um teste de vontade entre o ressentimento de Hugo e a sobrevivência obstinada de Flora. Glenda observa a dupla, sabendo que o desfecho deste duelo definirá o rumo de toda a reta final do jogo.

O tempo parece ter se tornado um conceito abstrato sob o sol escaldante. Já se passou uma hora e meia desde o início do desafio. Hugo e Flora são duas estátuas de tensão; o suor corre livremente por seus rostos, manchando o solo abaixo de suas plataformas. O tremor nos braços de ambos é constante, um lembrete visual de que o corpo humano está sendo levado a níveis extremos de exaustão. Glenda, percebendo que a resistência física dos dois é quase inesgotável, decide mudar a dinâmica para testar a fraqueza mental e a privação que eles enfrentam. Ela caminha lentamente até a mesa de mantimentos próxima ao campo, onde o aroma de comida fresca é projetado pelo vento diretamente para onde os competidores estão. "Hugo, Flora" a voz de Glenda soa quase como uma carícia cruel. "Vocês estão aqui há 90 minutos. O corpo de vocês está pedindo socorro. Que tal um pouco de conforto?" Ela levanta um prato com um hambúrguer suculento, fumaça saindo da carne grelhada. "Hugo, se você descer agora, esse hambúrguer, batatas fritas e uma cerveja gelada são seus. Imediatamente. Você pode comer tudo agora mesmo, sair dessa plataforma e descansar. O que me diz?" Hugo fecha os olhos por um segundo, o esforço visível na veia saltada em seu pescoço. O cheiro é uma tortura, mas ele nem sequer hesita. "Não, Glenda. Eu não saio daqui por comida." Glenda vira-se para Flora, exibindo uma taça de vinho e uma tábua de queijos finos. "Flora, o que você acha? É um banquete que você não vê há semanas. Você pode desistir, sentar-se na sombra e jantar como uma rainha. Por que continuar se torturando por um colar que pode nem te salvar no futuro?" Flora, cujos lábios estão secos e rachados, mantém os olhos fixos num ponto invisível à sua frente, ignorando o aroma que a faz salivar involuntariamente. "Pode guardar o banquete, Glenda" responde Flora, com a voz embargada, mas firme. "Eu não vou desistir." Glenda guarda os pratos, seus olhos estreitados em um leve sorriso de aprovação pela determinação deles. "Entendido." A prova continua. O desafio entra em uma zona de silêncio absoluto. A oferta de comida, que deveria ser a saída mais lógica para o sofrimento, apenas fortaleceu a parede invisível de teimosia entre eles. Hugo e Flora permanecem em suas posições, a dor muscular agora acompanhada pelo desafio psicológico de ver a comida ser retirada de cena. A disputa, que já era sobre sobrevivência, transformou-se em uma prova de quem é capaz de suportar mais, não apenas o peso físico, mas a própria fome e o desejo de desistir.

A tortura psicológica atinge um novo nível quando Glenda retorna ao centro da arena, desta vez segurando dois envelopes selados. O ar ao redor de Hugo e Flora parece ficar mais denso. "Sei que a fome não foi suficiente" Glenda começa, com um tom mais grave. "Mas talvez a saudade seja. Eu tenho aqui cartas de casa. Notícias da família, fotos, palavras daqueles que vocês não veem há semanas. Se um de vocês descer agora, esse envelope é seu. Você pode ler, se emocionar e matar essa angústia. Quem quer se despedir do jogo e se reencontrar com o que deixou lá fora?" O silêncio que se segue é dilacerante. Hugo aperta a alça com tanta força que seus nós dos dedos estão brancos. Ele respira de forma irregular, o rosto transparecendo a dor de quem está sendo tentado em sua ferida mais profunda. Flora solta um som que parece um soluço abafado, seus olhos marejados travados na carta que, ela sabe, contém o conforto que tanto buscou. "Hugo? Flora?" Glenda aguarda, implacável. Hugo balança a cabeça negativamente, o maxilar trincado em uma demonstração de pura força de vontade. Flora, com a voz embargada pela emoção, consegue articular apenas um seco: "Não. Eu não vou desistir." Glenda guarda os envelopes, e o desafio segue. A marca de duas horas se aproxima. O corpo de Flora já não responde mais aos comandos; o tremor é tão intenso que ela mal consegue manter a corda alinhada. Em um movimento involuntário, seus ombros cedem. A alça desliza entre seus dedos suados, e o balde despenca. "Flora, fora da prova!" anuncia Glenda. Flora desaba no chão da plataforma, desolada, enquanto Hugo, num último esforço sobre-humano, solta um grito de alívio e triunfo ao perceber que é o único que resta. Glenda se aproxima de Hugo, retirando o colar de imunidade de seu pescoço e colocando-o novamente no peito do rapaz. "Hugo, você é o vencedor desta imunidade. Você está garantido no próximo conselho tribal." Ela olha para o grupo, que agora se reúne ao redor da plataforma, e com um gesto firme, ordena: "Voltem para o acampamento. O jogo segue, e agora, a segurança de Hugo é o único fator imutável na estratégia de vocês." Os cinco competidores iniciam o retorno, com Hugo ostentando o colar e Flora, ainda processando a perda, caminhando logo atrás, enquanto a sombra de uma eliminação inevitável paira sobre a trilha de volta.

O clima no acampamento está longe de qualquer celebração genuína. Assim que chegam, Lídia se aproxima de Hugo, mantendo o tom de voz baixo, quase um sussurro conspiratório, enquanto os outros ainda se dispersam. "Hugo, antes de qualquer coisa, parabéns pela prova. Você foi um gigante ali. Mas agora, o foco tem que ser total" Lídia diz, com os olhos fixos nos dele, monitorando cada reação. "Não temos outra opção lógica: o alvo hoje tem que ser o Renato. Ele está fragilizado, está emocionalmente instável e, se a gente não cortar o mal pela raiz agora, ele pode acabar encontrando alguma brecha ou virando o jogo de novo." Hugo limpa o suor do rosto com a manga da camisa, olhando para o horizonte com o cenho franzido. O cansaço da prova ainda pesa em seus ombros. "Eu não sei, Lídia..." ele hesita, olhando em direção à mata onde os outros estão. "Eliminar o Renato agora... Não sei se eu teria estômago para isso, tendo a Flora e a Clarisse ali disponíveis. O Renato errou comigo, ok, mas a gente ainda tem um histórico. Será que não é melhor tirar alguém que não tem nenhum laço com a gente?" Lídia não perde o ritmo. Ela se aproxima um pouco mais, usando toda a sua capacidade de persuasão. "Hugo, pensa comigo: a Flora e a Clarisse são cartas fora do baralho se a gente focar no Renato. Se a gente mantém o Renato, a gente mantém uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento, especialmente pela ligação dele com a Flora. O Renato é a peça que desestabiliza tudo. Se a gente tirar ele, o resto do jogo fica muito mais fácil de controlar. Você quer arriscar deixar ele vivo e ver ele se vingar na próxima?" Enquanto a articulação de Lídia ocorre a poucos metros, o cenário é oposto na área de descanso. Renato está sentado ao lado de Flora, que ainda esconde o rosto entre as mãos, os ombros balançando em um choro silencioso e contido. A perda da prova e a tortura psicológica da oferta da carta da família deixaram marcas profundas na competidora. "Shhh, respira..." Renato diz, em tom protetor, passando a mão pelo ombro de Flora. "Você foi incrível ali. Você aguentou quase duas horas, Flora. A carta... ela vai estar te esperando lá fora. Eu sei que dói, eu sei que parece que você perdeu algo que não volta, mas você manteve sua integridade. Isso é o que importa." Flora levanta o rosto, os olhos inchados, mas com um brilho de determinação que substitui a tristeza. "Eu só me sinto uma idiota, Renato. Eu estive tão perto..." ela soluça, mas se estabiliza ao sentir o apoio dele. "Eu não poderia ter aceitado aquela carta. Se eu saísse, eu estaria abrindo mão de tudo o que a gente lutou até aqui. Mas a sensação de vazio... É horrível." Renato a abraça, sentindo o peso da própria consciência. Ele sabe que a aliança dos dois é o único porto seguro, mas, alheio à conversa de Lídia e Hugo a poucos metros dali, ele mal imagina que a decisão sobre o seu destino já está sendo selada sob o pretexto de "estratégia".

O sol mergulha atrás da linha das árvores, tingindo o céu com tons de violeta e laranja queimado, antes de ceder lugar ao manto opressor da noite. O caminho para o conselho tribal é feito em um silêncio sepulcral, apenas o estalar das tochas iluminando o rosto tenso de cada um dos cinco sobreviventes. Ao chegarem à clareira, o cenário é de uma solenidade ritualística: a fogueira central, o fogo crepitando em um ritmo hipnótico, e as cadeiras dispostas em semicírculo como um tribunal. "Boa noite a todos" a voz de Glenda corta a penumbra, grave e imponente. Ela aguarda que cada um caminhe até o suporte de metal nas extremidades e posicione sua tocha. "Lembrem-se: Essas tochas representam suas vidas neste jogo. O fogo é a sua permanência. Uma vez que ele for apagado, a jornada de vocês aqui termina." Um a um, eles se acomodam. Hugo, ostentando o colar de imunidade como uma armadura, senta-se com a postura rígida de quem sabe que não será o alvo. Renato, Flora, Lídia e Clarisse ocupam seus lugares, com olhares que evitam se cruzar, mantendo uma distância física e emocional que reflete o estado atual da tribo. "Agora" anuncia Glenda, voltando-se para a entrada da clareira "é o momento do júri ocupar o seu lugar." Os passos surgem das sombras. O grupo que já foi eliminado, incluindo o recém-chegado Benedito, caminha até a área designada, um degrau acima dos competidores. Eles se sentam com rostos inexpressivos, figuras observadoras que agora detêm o poder final sobre o destino daqueles que permanecem no jogo. "Júri" Glenda se dirige a eles com um olhar curto "vocês estão aqui apenas para observar. O processo de votação pertence única e exclusivamente a quem está na tribo. Não é permitida qualquer manifestação, sussurro ou interferência." Ela aguarda o silêncio absoluto se instalar. O único som é o estalo das toras de madeira na fogueira, que lança chamas dançantes e sombras longas sobre os rostos dos participantes. A umidade da noite traz o cheiro da terra e da mata cerrada, criando uma atmosfera densa, carregada pelo peso das decisões tomadas nas últimas horas. Glenda percorre cada rosto com os olhos, parando por um segundo em Renato e depois em Lídia, antes de finalmente quebrar o silêncio. "Estamos prontos para mais um conselho tribal?"


LEMBRANDO QUE: Esta coluna é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Todos os direitos de criação das personagens e suas histórias são reservados. Este material não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem autorização. © 2015 - 2026

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